sábado, 31 de outubro de 2009

Aires do Rio

Aires Pereira de Araújo Campos, conhecido como Aires do Rio, não era natural de Monte de Fralães. Cremos que era ninense. O seu nome documenta-se em Monte de Fralães pela primeira vez nos anos finais da monarquia. Aparece nas actas da Confraria e nas da Junta de Paróquia. Nos dois casos, transparece o seu empenhamento republicano.
Em 1909, o administrador do concelho vem em pessoa presidir à eleição da mesa da Confraria. Isso não impede Aires do Rio de enviar à mesa «cinco protestos». Dois anos a seguir, Aires do Rio integra já a mesa da Assembleia-geral. Em 1919, como «ilustre presidente da Confraria de Nossa Senhora da Saúde», propõe à Junta de Freguesia «a construção d’um braço de estrada que ligasse a estrada nacional nº 4 com o terreiro desta freguesa, onde se costuma realizar anualmente a romaria de N. Senhora da Saúde, e que, sendo essa romaria uma das maiores do Minho...» Mas não ficará por aqui a sua intervenção nos destinos da irmandade.
Entretanto, igualmente desde os anos finais da monarquia, tinha ressurgido na freguesia a questão do cemitério. Aires do Rio lá esteve na liça. Propunha-se que a igreja velha — a tal que o P.e Jácome Dias trouxera do cimo do monte — fosse demolida e em seu lugar e espaço circundante fosse instalado o cemitério. Só que isso não podia agradar ao novo senhor de Fralães, que via ali a possibilidade de obter uma entrada condigna. A questão atingiu tais proporções que acabou por ser decidida pelo Presidente da República, Bernardino Machado. Ironia máxima, a suprema autoridade republicana decidiu, em 1916, a favor dos interesses do monárquico Luís de Vilares.
O nome de Aires do Rio aparece também ligado ao Fontanário, como o do seu rival, Constantino da Granja, e o pároco de então, o Pe. Pedro, aparecem ligados ao muro de suporte do adro, às suas escada e cerca, bem como à Casinha das Esmolas.

Aires do Rio, cuja instrução não passara da primária, tinha os seus interesses intelectuais. Fazia as suas leituras e dedicou-se também a escrever. Chegou a mesmo a publicar uma História de Portugal em Verso, que não passaria do seu compêndio da primária transposto para uma redondilha muitas vezes desajeitada.
No campo da narrativa, escreveu vários livros, hoje todos perdidos, à excepção do «romance» Vingança do Tutorr.
Bairrista convicto, deixou num livrito de apontamentos um protesto contra alguém deViatodos, que deverá ser o Pe. José Garcias, que havia prejudicado a freguesia no tratamento da questão dos limites. Aires do Rio aproveita então para registar a verdadeira delimitação da sua terra adoptiva.
A Vingança do Tutor abre com uma dedicatória ao Dr. Nuno Simões, a que se segue uma «introdução», que é o prefácio. Estes dois textos ressumam a Camilo. Parece-nos contudo que esta impressão inicial é enganosa, sobretudo se levasse a esperar qualquer tipo de paráfrase ou plágio bastante ao pé da letra. De facto, Aires do Rio romanceia, ou ao menos assim aparece ao leitor, factos verídicos do seu conhecimento, o que logo o coloca perante uma intriga original. Além disso, decorrendo a segunda parte do «romance» no Brasil, que Aires do Rio conheceu, ainda mais à distância é deixada a sombra tutelar camiliana. Por este lado, aproximar-nos-íamos mais de Ferreira de Castro, cujos romances Emigrantes e A selva são anteriores à Vingança do Tutor, que é de 1937. Em nosso entender, contudo, não deve haver dependência deste para aqueles romances.
A intriga da Vingança do Tutor parte-se com demasiada clareza em duas. Cada uma delas é uma história de amor. Na segunda, contra todos os esforços do tutor da apaixonada, o amor que liga o par sai vitorioso. E entre o primeiro par e o segundo, e a ligação é só esta: o apaixonado da primeira história é o pai do apaixonado da segunda. De resto, tudo é diferente, sobretudo no espaço, já que a primeira se inicia e
Aires do Rio classifica a sua narrativa. Trata-se antes de duas novelas ou até dois contos.
Qualquer destas histórias tem passos interessantes; o tratamento dado às personagens é reduzido, mas apesar disso a história é mais ou menos convincente. O mal maior de que este livro padece, cremos que veio da incultura literária do seu autor, especialmente a nível estilístico, quando não mesmo ortográfico.
Vamos dar a palavra a Aires do Rio, que nos vai falar da evolução urbanística do Rio de Janeiro em princípios deste século. O texto que vamos transcrever vem na «quarta parte» e tem como título «A cidade do Rio de Janeiro».

A CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Quem conheceu a cidade do Rito de Janeiro, antes do ano de mil novecentos, se lá voltasse hoje, certamente que a não conheceria. O movimento embora que já fosse grande nessa época não era para comparar com o que é actualmente, pois que apenas os bondes deram a companhia de Bota-fogo, é que já eram movidos a electricidade. As outras, a grande Companhia de S. Cristóvão, a de Vila Isabel, Engenho Novo e a dos Carris Urbanos e os do Meier ainda eram todos movidos por animais.
O serviço feito por automóveis e caminhões é todo posterior a esses anos.
Pode dizer-se, que a cidade era a primeira do mundo com respeito a trabalho.
Ali trabalhava-se quási tanto de noite como de dia. O descanso dominical só nos fins de noventa e nove é que começou, mas povo esse só muito mais tarde é que principiou a ter essa regalia, e mesmo o comércio só com a organização do horário do trabalho é que leve de executar a lei.
Mas era com esse trabalho persistente, que se conseguia arranjar e amealhar algumas fortunas.
A cidade, hoje, é completamente outra. Com a sua grande Avenida da Beira-Mar, o Cais do Porto, acostável, as grandes avenidas Passos, Rio Branco, Mem de Sá, Vila Isabel e muitas outras que não menciono, deram à cidade um certo aspecto de elegância e fidalguia, que a tornou comparável a outras cidades, capitais de grandes nações.
A retirada dos morros do meio da cidade, o encanamento do canal do Mangue, o alargamento da área da cidade até à Gávea, Laranjeiras, Madureira, Boca do Mato, Tijuca, Prainha e muitos outros lugares dos subúrbios, que dão à cidade uma área de muitos quilómetros quadrados.
A electrificação de tudo pela Companhia Light deu-lhe todas as aparências de cidade moderna e elegante.
Mas com todas estas inovações deixou de ser a terra da promissão, que foi no tempo da já célebre árvore das patacas.


Imagem: cópia dum panfleto contra Luís Vilares, certamente da iniciativa de Ares do Rio.

2 comentários:

  1. Caro Professor José Ferreira,

    O meu nome é Cláudia Pereira e sou bisneta do Aires do Rio. Gostei muito do seu artigo sobre o meu bisavô, o qual já divulguei por toda a família.
    A informação que disponho sobre o seu nascimento é a seguinte:
    Ano: 1877
    Local: St. Lucrécia do Louro - Vila Nova de Famalicão.
    Pode por favor informar-me como consigo obter o livro "A Vingança do Tutor".
    Obrigada.

    ResponderEliminar
  2. Olá Cláudia!
    Só hoje reparei no seu comentário.
    A "Vingança do Tutor" não existe à venda nem sei se alguma vez existiu. Eu tenho apenas uma fotocópia fracota, mas que se lê.
    Se quiser, escreva-me para jsf0449@gmail.com
    José Ferreira

    ResponderEliminar